30/10/2008
O batismo do palhaço
MATÃO: O palhaço Bilú entrou em cena sem querer. Veio esfarrapado, sujo, a voz rouca lhe sai sobressaltada, fanha, assustadiça. Pergunta a todos por um palhaço que ele veio assistir, mas não chegou. Na falta do protagonista, vira o substituto.
Passa a receber ordens de um patrão que nunca aparece, fica nas coxias apenas ditando ordens. Dizem pra ele que o próximo número é o mais difícil. Dão-lhe uma bicicletinha de madeira e dizem: “passa por aquele arco ali”. O patrão manda, Bilú obedece.
Treme na base, mas sai correndo com o pequeno veículo, pedalando sem jeito, enroscando as calças largas, o sapato comprido escorregando. Pára diante do arco em chamas. A pequena gangorra de madeira lhe dificulta ainda mais o objetivo. Pede ajuda aos espectadores. Pede energia. A torcida lhe empurra para a missão impossível. Ele nem pensa. Empurrado pelos gritos da platéia, sai em disparada e passa pela gangorra sob as chamas ferozes.
Cai no chão, já do outro lado, feliz por ter sobrevivido. Na platéia, sorrisos, risos, gargalhadas de satisfação, do povo que sabe o que é estar na pele de um sofredor que consegue vencer mais uma das milhares de pequenas batalhas do cotidiano. Mais um palhaço no mundo. Batismo de fogo.
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